Uma reflexão sobre a fé, nossas convicções e o Brasil que estamos construindo.
“Todas as vossas coisas sejam feitas com amor.” 1 Coríntios 16:14
Hoje, durante meu devocional em 1 Coríntios 16:13–24, fiquei refletindo sobre uma orientação aparentemente simples, mas que carrega uma responsabilidade enorme para aqueles que professam a fé cristã: “Todas as vossas coisas sejam feitas com amor.”
É interessante perceber que Paulo, ao encerrar sua carta à igreja de Corinto, não estava escrevendo para uma comunidade perfeita. Muito pelo contrário, aquela igreja enfrentava divisões, disputas, orgulho, imaturidade espiritual e tantos outros problemas que precisavam ser confrontados. Eram pessoas que conheciam a Palavra, possuíam dons espirituais e participavam da vida religiosa, mas que, em muitos momentos, ainda demonstravam dificuldades em viver aquilo que professavam.
Enquanto meditava nessa passagem, não consegui deixar de pensar no contexto que estamos vivendo no Brasil, especialmente neste período eleitoral, em que as divergências políticas parecem ultrapassar cada vez mais os limites das ideias e alcançar nossos relacionamentos, nossas famílias, nossas igrejas e até a maneira como enxergamos o próximo. Temos acompanhado discussões, julgamentos, ofensas e rompimentos, muitas vezes entre pessoas que compartilham a mesma fé, leem a mesma Bíblia e afirmam seguir o mesmo Cristo.
Diante disso, uma pergunta começou a inquietar meu coração: será que, em nossa tentativa de defender aquilo em que acreditamos, não estamos, por vezes, nos afastando justamente daquilo que Cristo nos ensinou a viver?
Paulo nos orienta a vigiar, permanecer firmes na fé, agir com coragem e nos fortalecer, mas, logo em seguida, acrescenta que todas as nossas atitudes devem ser governadas pelo amor. Ele não nos pede para abandonar nossas convicções, relativizar a verdade ou permanecer indiferentes diante da injustiça. Pelo contrário, a firmeza e a coragem fazem parte da caminhada cristã. Entretanto, existe uma diferença muito grande entre permanecer firme naquilo em que acreditamos e permitir que nossas convicções se transformem em instrumentos de arrogância, desprezo ou superioridade.
Podemos discordar de alguém sem desrespeitá-lo, podemos confrontar ideias sem atacar a dignidade de quem as defende, podemos exigir justiça sem alimentar ódio e podemos defender princípios bíblicos sem esquecer que o amor também é um desses princípios. O problema começa quando acreditamos que estar certos nos concede o direito de agir de qualquer maneira, como se a importância daquilo que defendemos justificasse os meios que utilizamos para defendê-lo.
Mas desde quando a verdade precisa da crueldade para ser sustentada? Desde quando humilhar alguém passou a ser demonstração de coragem espiritual? E em que momento começamos a confundir a defesa da fé com a necessidade de vencer discussões?
Tenho pensado muito sobre a facilidade com que podemos transformar nossas preferências políticas em uma extensão da nossa identidade espiritual, como se pertencer a determinado grupo, apoiar um candidato ou defender uma ideologia fosse suficiente para determinar a fidelidade de alguém a Deus.
É evidente que nossas convicções cristãs influenciam a maneira como enxergamos a sociedade, a justiça, a dignidade humana e as responsabilidades dos governantes, e não acredito que a fé deva ser completamente separada das nossas decisões como cidadãos. Entretanto, existe um perigo quando deixamos de examinar criticamente aqueles que apoiamos, quando justificamos comportamentos que condenaríamos em outras circunstâncias ou quando passamos a tratar pessoas que pensam diferente como se fossem menos dignas de respeito.
Nenhum partido político representa perfeitamente o Reino de Deus, nenhum governante está acima da verdade e nenhuma liderança humana deveria ocupar em nosso coração um lugar que pertence exclusivamente a Cristo. Nossa fidelidade ao Evangelho precisa ser maior do que nossa fidelidade a qualquer projeto político, porque, quando invertemos essa ordem, corremos o risco de adaptar nossos princípios às nossas preferências, em vez de permitir que nossos princípios orientem nossas escolhas.
E talvez uma das questões mais difíceis de reconhecer seja justamente esta: será que, em nossa tentativa de defender Deus publicamente, às vezes acabamos demonstrando atitudes que não refletem o caráter de Cristo?
Compartilhamos versículos sobre amor, misericórdia e perdão, mas nem sempre conseguimos aplicar esses mesmos ensinamentos quando alguém nos contraria. Falamos sobre a importância da família, mas permitimos que divergências políticas destruam relacionamentos familiares.
Defendemos a verdade, mas, em alguns momentos, compartilhamos informações sem verificar sua veracidade, simplesmente porque confirmam aquilo que já desejávamos acreditar. Pregamos sobre mansidão e domínio próprio, mas reagimos com agressividade quando nossas opiniões são questionadas.
E não escrevo isso como alguém que se coloca acima dessas contradições, porque também reconheço o quanto precisamos ser constantemente corrigidos e transformados pela Palavra. É muito mais fácil identificar a falta de amor nas atitudes dos outros do que reconhecer quando ela está presente nas nossas próprias reações.
Talvez por isso a orientação de Paulo seja tão necessária, porque ela não nos permite escolher em quais situações devemos agir com amor. Ele diz todas, e isso inclui justamente os momentos em que estamos irritados, decepcionados, contrariados ou profundamente convencidos de que temos razão.
Também precisamos compreender que o amor bíblico não é sinônimo de passividade, omissão ou ausência de posicionamento. Jesus demonstrou compaixão, acolheu pessoas rejeitadas e ensinou sobre o perdão, mas também confrontou a hipocrisia, denunciou comportamentos injustos e não negociou a verdade para agradar multidões.
O amor que encontramos nas Escrituras não ignora o mal, não romantiza a injustiça e não exige que permaneçamos silenciosos diante de tudo. Amar não significa concordar com qualquer comportamento, assim como perdoar não significa eliminar a necessidade de responsabilidade. O que o Evangelho nos ensina é que até mesmo nossas correções precisam ser conduzidas por um coração comprometido com a verdade e com a dignidade humana, e não pelo desejo de humilhar, destruir ou demonstrar superioridade.
Existe uma diferença entre confrontar uma atitude e desprezar uma pessoa, entre denunciar uma injustiça e alimentar ódio, entre defender uma convicção e transformar aqueles que discordam de nós em inimigos pessoais. A coragem cristã não deveria ser medida pelo volume da nossa voz ou pela intensidade das nossas acusações, mas também pela nossa capacidade de permanecer fiéis à verdade sem abandonar o caráter de Cristo.
Quando observo o cenário brasileiro, penso que talvez estejamos tão preocupados em discutir qual país queremos construir que, em alguns momentos, esquecemos de observar quem estamos nos tornando durante esse processo.
Desejamos uma sociedade mais justa, honesta, respeitosa e comprometida com valores que consideramos fundamentais, mas como podemos esperar que essas virtudes estejam presentes na sociedade se não estamos dispostos a cultivá-las em nossas próprias atitudes? Como exigir respeito enquanto normalizamos a humilhação? Como desejar honestidade enquanto relativizamos a mentira quando ela favorece nossas preferências? Como defender a dignidade humana se essa dignidade parece depender da posição política, da religião ou da opinião de alguém?
Essas contradições precisam nos incomodar, especialmente como cristãos, porque nossa responsabilidade não termina quando expressamos publicamente aquilo em que acreditamos. Ela continua na maneira como tratamos as pessoas depois que a discussão termina, naquilo que compartilhamos quando ninguém está nos corrigindo e nas escolhas que fazemos quando defender o que é certo exige contrariar até mesmo aqueles com quem nos identificamos.
Em 1 Coríntios 13, Paulo já havia ensinado que poderíamos possuir conhecimento, dons extraordinários e até uma fé capaz de mover montanhas, mas, sem amor, tudo isso perderia seu verdadeiro significado. Agora, ao final da carta, ele retoma esse princípio e nos lembra que o amor não deveria ser apenas um assunto sobre o qual pregamos, mas o fundamento sobre o qual construímos nossas atitudes.
Acredito que essa seja uma reflexão especialmente importante para a Igreja neste momento, porque o testemunho cristão não se limita àquilo que afirmamos sobre Jesus. Ele também se manifesta na maneira como representamos Seus ensinamentos diante de uma sociedade que observa nossas palavras, nossas escolhas e nossas contradições.
Não significa que seremos perfeitos ou que nunca reagiremos de maneira equivocada, mas significa que precisamos permanecer sensíveis à correção de Deus, dispostos a reconhecer nossos erros e comprometidos com uma transformação que alcance muito além dos nossos discursos religiosos.
Não sei quais serão os próximos capítulos da história política do nosso país, tampouco acredito que exista uma solução simples para problemas tão profundos e antigos, mas continuo acreditando que precisamos exercer nossa cidadania com responsabilidade, discernimento e consciência, sem permitir que nossas diferenças destruam aquilo que deveria permanecer essencial.
Podemos e devemos questionar governantes, cobrar justiça, combater a corrupção, defender direitos e participar das decisões que influenciam o futuro da nossa sociedade, mas nenhuma dessas responsabilidades nos dispensa de amar o próximo. E amar o próximo não significa amar apenas quem vota como nós, pensa como nós, frequenta a mesma igreja ou compartilha das nossas interpretações. O chamado de Cristo é muito mais profundo e desafiador do que isso, porque alcança também aqueles com quem temos dificuldades, aqueles que nos contrariam e aqueles cujas escolhas não conseguimos compreender.
Ao concluir meu devocional, percebi que essa passagem não deveria me levar apenas a refletir sobre o comportamento da sociedade ou sobre as atitudes de outros cristãos, mas, principalmente, a examinar meu próprio coração. Afinal, é muito fácil desejar que o mundo seja transformado enquanto resistimos às mudanças que Deus deseja realizar dentro de nós.
Talvez precisemos falar menos sobre o quanto os outros estão errados e dedicar mais tempo a avaliar se nossas próprias atitudes estão alinhadas àquilo que professamos. Talvez precisemos aprender novamente a ouvir, a reconhecer nossas limitações, a admitir quando não sabemos alguma coisa e a compreender que discordar de alguém não significa necessariamente deixar de respeitá-lo.
Não precisamos abrir mão da verdade para demonstrar amor, mas também não podemos abrir mão do amor sob a justificativa de defender a verdade.
Que neste tempo de tantas divisões possamos permanecer vigilantes, firmes e corajosos, como Paulo nos orienta, mas que nossa firmeza nunca seja maior que nossa disposição de amar, que nossas convicções não se transformem em arrogância e que nossa participação na sociedade seja acompanhada de um testemunho coerente com o Evangelho.
Que saibamos reconhecer a diferença entre defender princípios e idolatrar pessoas, entre buscar justiça e desejar vingança, entre corrigir e humilhar. E, acima de tudo, que nunca nos esqueçamos de que não fomos chamados apenas para defender o nome de Cristo em nossos discursos, mas para refletir Seu caráter em nossa maneira de viver.
No fim, não basta perguntar que tipo de Brasil queremos construir. Também precisamos perguntar que tipo de cristãos estamos sendo enquanto tentamos construí-lo.

Deixe um comentário