A Importância de Ouvir os Alarmes Espirituais

Há algumas semanas, o alarme de um carro no estacionamento do prédio onde moro disparou por volta das oito da noite e, em intervalos curtos e longos, atravessou toda a madrugada até ser finalmente desligado pela manhã. O mais curioso é que ninguém sabia ao certo de quem era o carro, pois as vagas não têm numeração, o que tornava difícil identificar o dono para avisá-lo.

Durante a noite, a vontade de gritar algo como “alguém desliga esse alarme!” foi grande. Alguns vizinhos relataram depois que também sentiram o impulso de gritar da sacada. Eu mesma cogitei chamar a polícia, meu marido pensou na administração, e no fim ninguém tomou uma atitude concreta, porque todos esperávamos que o dono do carro descesse para resolver, já que o som era audível em todo o complexo de apartamentos. Não se tratou de negligência, mas da expectativa de que o próprio responsável viesse desligar o alarme. Assim, restou-nos apenas suportar o incômodo e orar para conseguir dormir.

Naquela noite, nada passou de barulho e incômodo; só queríamos que o som parasse para podermos descansar. Quando, finalmente, pela manhã, o silêncio voltou, veio também a pergunta: e se aquele alarme não tivesse sido apenas mau contato? E se, de fato, estivesse acontecendo algo com aquele carro, como um roubo, um ato de vandalismo, alguém preso no porta-malas? E se o mau contato tivesse gerado uma faísca e, consequentemente, um incêndio? Afinal, não passamos a noite inteira com os olhos fixos no carro e, por mais que, superficialmente, não parecesse haver nada, o que poderia estar acontecendo por trás? O barulho que tanto nos tirou a paz poderia ter sido, na verdade, um instrumento de proteção ou um chamado para preservar algo ou alguém.

É assim também na vida espiritual. Muitas vezes, nos irritamos com situações que, na verdade, são alertas para o nosso bem. O incômodo que chega sem aviso pode ser um chamado de Deus para abrirmos os olhos, despertarmos do sono espiritual e corrigirmos o que está errado, um chamado para olharmos além das aparências, enxergarmos o problema real e encararmos como deve ser encarado. Mas, em vez de discernir, olhamos apenas o lado negativo. Preferimos reclamar, tapar os ouvidos ou ignorar. Ficamos acomodados, esperando para depois ou até mesmo delegando a outra pessoa aquilo que nós mesmos poderíamos resolver.

A Bíblia nos exorta: “Já é hora de despertarmos do sono, porque a nossa salvação está agora mais próxima do que quando inicialmente cremos” (Romanos 13.11). E ainda: “Se hoje ouvirdes a Sua voz, não endureçais o vosso coração” (Hebreus 3.15). O Senhor fala de muitas maneiras: pela Sua Palavra, pela consciência, por uma pregação ou até por um incômodo que nos tira do lugar. Mas tantas vezes preferimos ignorar, porque ouvir significa mudar, e mudar muitas vezes exige sair da nossa zona de conforto.

O profeta Ezequiel também nos lembra da figura do atalaia, aquele que vigia e toca a trombeta quando enxerga o perigo se aproximando (Ez 33.1-6). Se o povo der ouvidos ao som da trombeta, pode se proteger; se ignorar, arcará com as consequências. Assim também é na nossa vida: o Senhor levanta sinais de alerta, e cabe a nós discernir se vamos dar atenção ou tapar os ouvidos.

Foi essa a lição que aprendi naquela noite e é por isso que escrevo esta reflexão. O incômodo que tanto me perturbou, e que a princípio parecia apenas um transtorno, tornou-se um lembrete de que Deus também nos desperta através dos incômodos. Nem sempre é fácil, mas os alertas, por mais desconfortáveis que sejam, podem carregar livramentos e mudanças que não enxergamos de imediato.

Quantas vezes o alarme da nossa consciência dispara e nós corremos apenas para abafar o som? Quantas vezes o Espírito Santo insiste em nos despertar, mas decidimos enxergar apenas como algo desagradável? Esquecemos que o alerta, por mais incômodo que seja, pode estar nos guardando de um mal maior, de algo que realmente precisa da nossa atenção e ação.

É importante dizer que essa experiência não significa que “todo incômodo seja um sinal de Deus”. Foi somente uma situação simples que me fez refletir e que pode servir como metáfora para a vida espiritual. Nem sempre algo que nos atrapalha tem um “sentido escondido”, mas às vezes pode ser uma oportunidade de parar e pensar em como estamos reagindo aos alertas do Senhor. E, claro, nem tudo se resolve apenas com oração ou reflexão: existem situações em que é preciso agir de forma prática e responsável, cuidando do bem comum e da segurança de todos.

Naquela noite, o alarme provavelmente foi apenas mau contato; nada grave aconteceu. Mas poderia ter sido diferente, pois o barulho que nos tirou o sono poderia ter sido aquilo que nos chamava para agir, para acolher o próximo ou simplesmente para olhar a situação com mais empatia. E é isso que aprendo para a vida espiritual: nem todo incômodo é maldição, ou vem para causar o mal. Muitas vezes, é livramento, é mudança, é a maneira de Deus nos chamar a dar atenção ao que está soando e que temos insistido em ignorar.

Que o Senhor nos dê sensibilidade para discernir os alarmes que Ele permite soar em nossa vida, e que não nos limitemos a olhar apenas o lado negativo ou para as aparências, mas sejamos despertados para vigiar, ajustar o que precisa ser corrigido e valorizar os alertas que nos protegem. O verdadeiro perigo não está no som que incomoda, mas em ignorar o que ele anuncia, principalmente quando é o próprio Deus nos chamando a despertar.

NOTAS

  1. Nem todo incômodo é sinal de Deus; discernimento é essencial (1 João 4.1).
  2. Cada cultura reage diferente a problemas; não foi negligência, mas expectativa de solução.
  3. O atalaia em Ezequiel 33 lembra que alertas existem para proteger.
  4. Fé também é prática: orar e agir com responsabilidade (Tiago 2.17).
  5. Incômodos podem ser oportunidades de empatia, vigilância, paciência, crescimento no caráter e mudança de direção (Romanos 8.28).


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